Enquanto o mundo se perde em distrações tecnológicas e bilionários projetam um futuro de fuga em Marte, eu convido você a uma reflexão fundamentada naquilo que é inegável: a nossa própria substância. Como jornalista e observador atento, estabeleço hoje uma tese que encerra qualquer debate sobre o êxodo espacial: nenhum ser vivente que habita o planeta Terra sairá do planeta Terra.

O Solvente Universal e a Memória do Mundo
A água é, tecnicamente, o maior solvente do universo. Sua capacidade de dissolver substâncias — de minerais a gases — é o que permite a vida, mas é também o que nos acorrenta a este solo. Através das bacias hidrográficas, a água atua como uma lavagem contínua do arcabouço geológico da Terra. Ela arranca o ferro, o magnésio, o cálcio e o silício das montanhas e os transporta, em um fluxo inexorável, para o mar.
Mas o mar não é o fim; ele é o arquivo. E nós, compostos por 70% de água, somos o veículo de processamento desse arquivo. Se somos feitos majoritariamente deste solvente, nós somos a manifestação externa desse fluxo geológico. O que a água dissolve na terra, ela deposita em nossas células. Pela Lei de Lavoisier, nada se perde, tudo se transforma. O que antes era poeira mineral, hoje é o sangue que corre em minhas veias.
O Abismo e a Consciência
Ao revisitarmos o Gênesis, lemos que o Espírito de Deus pairava sobre a face das águas enquanto as trevas cobriam o abismo. Na minha análise, a água é o maior abismo — uma profundidade física e simbólica que guarda toda a história da matéria. Se o ser humano é a água que ganhou consciência, nossa missão como administradores da Terra é ser esse espírito que traz ordem ao caos.
Administrar o planeta não é gerir recursos externos; é governar a nossa própria biologia. Quando falhamos na responsabilidade ambiental, estamos envenenando o solvente que nos mantém vivos. Se o “arquivo” geológico que a água carrega para o mar está contaminado, nós seremos os primeiros a absorver essa toxicidade. A saúde das bacias hidrográficas é a saúde da nossa consciência.
A Prisão Sagrada
O conceito de sair da Terra é uma ilusão biológica. A vida humana não é um código que pode ser transferido; ela é uma simbiose absoluta com a química e a gravidade deste mundo. Marte é um deserto de poeira morta, sem o ciclo do solvente universal que nos define. Transportar um ser vivente para fora daqui seria como tentar manter um peixe vivo no vácuo: ele morreria não por falta de tecnologia, mas por falta de mundo.
Quem do pó veio, ao pó voltará. Esta sentença não é apenas espiritual; é termodinâmica. A água que nos construiu a partir dos minerais da terra é a mesma que, ao final da jornada, nos dissolverá e nos devolverá ao ciclo. Não existe “fora”. Somos parte de um sistema fechado onde cada molécula é reciclada há bilhões de anos.
O Convite à Administração
Minha conclusão é sutil, mas severa: a nossa única saída não é o espaço, é a consciência. Se somos 70% água, somos 70% responsáveis por cada gota que flui no planeta. Não há para onde fugir, pois onde quer que fôssemos, teríamos que levar a Terra em nós, e sem ela, não há “nós”.
Jornalista Lauro Nunes
Portanto, cuidemos da nossa casa. Cuidemos do nosso pó e da nossa água. Que a nossa inteligência saiba pairar sobre esse abismo líquido, garantindo que a transformação da matéria continue servindo à vida, e não ao esquecimento. Pois aqui nascemos, aqui somos transformados e aqui repousamos.
